segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Momentos

Eu não agüentava mais. Faltavam poucos minutos, entretanto os segundos transformavam-se em horas diante da minha agonia. Tinha acabado de chegar ao local, aliás um local surpreendentemente muito bem freqüentado.
Meus amigos tinham me ligado há pouco para me desejar boa sorte e me parabenizar pela feliz escolha. Sempre deixei bem claro minha opinião, então minha decisão não pode ser considerada uma surpresa, porém na função de amiga fiquei muito feliz em receber o telefonema. Acho que faria o mesmo se eles estivessem no meu lugar, embora uma escolha dessa seja algo pessoal.
Já tinham se passado quarenta minutos e minha paciência já estava a ponto de acabar; queria me livrar logo daquilo. A pessoa que estava na entrada do estabelecimento se dirigiu em minha direção naquele momento e falou que o indivíduo responsável chegaria apenas depois de uma hora. Informei-a que iria fazer um lanche e dentro de cinqüenta minutos, estaria de volta.
Saí e fui até uma lanchonete a duas quadras dali. Já eram nove e vinte da noite e a rua estava vazia assim como a lanchonete. Cheguei lá encharcada pois chovia muito e eu não tinha levado o guarda-chuva, entretanto, minha fome era maior que o desconforto de pegar chuva em dia frio. Contei meu dinheiro e vi que poderia comprar quase nada. Pedi somente um pastel e fiquei sentada esperando me servirem. Me senti triste em não ter mais nada; em não conseguir suprir as próprias necessidades. Entretanto já tinha muito o que refletir, e ficar me lamentando por não ter dinheiro para fazer uma refeição, não iria mudar minha situação, pelo contrário, só iria me deixar deprimida. E naquela noite eu estava muito feliz e ansiosa pois meu futuro estava em jogo, eu sabia que iria dar tudo certo e que meu cotidiano continuaria sendo promissor por mais tempo.
Terminara de comer meu pequeno pastel, que por sinal não conseguiu “tirar” minha fome, e o celular tocou. Era minha mãe perguntando se já estava tudo bem comigo – como sempre preocupada. Disse que estava voltando ao local marcado em meia hora, pois o responsável ainda não tinha chego. Sua voz estava nervosa e pedia para que eu desse notícias logo que estivesse pronta. Falei que ligaria e que não ficasse preocupada pois estava aliviada; tinha chego o dia. Me despedi e segui andando até o local combinado.
Assim que cheguei, perguntei se o responsável já estava lá, e fui informada que poderia me dirigir até a primeira sala depois do comprido corredor. A casa onde estava era muito bonita por fora e ainda mais bela no seu interior. O corredor que levava a tão esperada sala, era bem decorado e perfumado. No fundo uma música ambiente fazia com que a pessoa ficasse totalmente relaxada, a vontade.
Ao chegar a porta informada, dei duas batidinhas na mesma e escutei alguém falar lá de dentro:
- Entre moça!
Era uma voz de um senhor, com uma certa entonação imperativa. Abri, olhei e me deparei com um homem calvo de uns cinqüenta e cinco anos, com uma ótima aparência, simpático, sorridente. Ele me olhou fixamente e disse.
- Sente-se senhorita, fique a vontade.
Eu me sentia muito realizada e segura também, faltavam poucos minutos. Perguntei a ele qual era seu nome, e ele me respondeu que se chamava Dr. Wolf, e que eu ficasse tranqüila até porque ele já trabalhava há mais de trinta anos como médico. Me perguntou se seria o meu primeiro aborto, e respondi entusiasmada que sim. Me falou que já tinha realizado mais de quatorze mil abortos e que estava em boas mãos. Pediu então que me dirigisse a sala ao lado, onde seria realizado o procedimento.
Nunca estive tão feliz em um consultório médico.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Limites

Fortes, resistentes, donos do seu futuro; seres quase indestrutíveis. Essa pseudopersonalidade é encarada por muitos como estilo de vida; faz parte da crença e objetivos na vida dos ingênuos.
Por que nossa fragilidade é tão negada? Talvez medo do desconhecido ou receio de considerar que está exposto às situações mais diversas do cotidiano, as quais nos deixam a deriva na vida. Quando falo a deriva na vida, quero fazer lembrar dos momentos rotineiros que muitas vezes deixam certos indivíduos perplexos diante da descoberta de que somos extremamente frágeis.
Não é a vontade de viver ou o amor por alguém que nos faz ser menos sujeitos às intemperies diárias. É necessário haver uma aceitação de limites, pois na tentativa de querermos provar uma certa indestrutibilidade humana, é provavel que o sentimento de dor passe a ser nosso companheiro.
Certas pessoas nunca aprenderam a lidar com a perda, e quando na vida adulta se veêm rodeados de situações ameaçadoras e de sentimentos nunca experimentados antes, podem sentir-se só, e questionar-se sobre sua força. Somos muito mais frágeis no âmbito físico do que no psicológico, e podemos - se assim nos for ensinado - ter facilidade de convivermos ou até mesmo alterarmos certos limites e fraquezas.
Aceite que você nasceu para ser feliz, para fazer alguém feliz, para ajudar alguém ou até mesmo muitos, para talvez ter filhos, e aceite também que um dia poderás perder tudo o que conseguistes e que morrerás, assim darás muito mais valor às suas conquistas, irás respeitar mais seus limites físicos e mentais.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Iguais, semelhantes ou bem diferentes?

O que nos faz melhores? E o que nos faz melhores que outro semelhante? São perguntas parecidas, porém com respostas totalmente distintas. Formas de avaliar ensinamentos e valores humanos que nos fazem pensar nas atitudes da sociedade perante a mesma.
Atitudes solidárias, benéficas, corajosas de algumas nações nos mostram como as pessoas podem contribuir de forma benéfica com a humanidade e consequentemente com sua existência. Entretanto certos indivíduos buscam de forma indevida uma diferença entre os povos, mas não em costumes e sim a nível de dignidade. Um exemplo claro de diferença no tratamento social dos povos, é o continente africano. Lá, em muitos países as condições para a sobrevivência humana são precárias, pois a falta de comida, água se mistura com o excesso de doenças e com a falta de médicos e fármacos. Os índices mais elevados de HIV estão lá, porém pouco se fez e se faz para ajudá-los. As descobertas sobre essa doença, nos ultimos 15 anos foram enormes, entretanto os resultados práticos foram ínfimos para a maioria da miserável população africana. Além disso são acometidos também por diversas parasitoses - nos mais diversos são simples de se resolver - e que lá tornam-se fatais. Será que as descobertas sobre o HIV teriam tanto sucesso se a doença estivesse basicamente na África e entre populações pobres? Duvido. O importante é saber que são pessoas iguais a nós, com sentimentos, vontades, dores e que estão sendo presas do sua própria espécie. Quando penso neles, me vem a seguinte pergunta: O que nos faz melhores que outro semelhante? Mas ninguém se incomoda com os coitados que lá estão, e assim o tempo passa e a cada minuto vários morrem por doenças, fome e sede. Muitos não reclamam, mas não por que gostam da situação, e sim por que não tem mais forças físicas para pedir ajuda. Fico me questionando qual será a diferença humana entre um europeu e um africano. Alguém sabe? Eu não consigo ver a diferença, o que consigo ver é apenas uma grande injustiça social.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Vida

A maioria segue regras, conceitos. Me pergunto o que essas pessoas ganham seguindo idéias prontas, sendo apenas mais um indivíduo guiado inconscientemente por mentes alheias, ou melhor, o que essas pessoas deixam de ganhar por serem tão influenciadas?
Deixam de viver, de sentir sensações verdadeiras, vivem no automático sem a chance de aproveitar os prazeres da vida. Se condicionam a certos hábitos vitais de um dia-a-dia traiçoeiro como trabalho, negócios, status, imagem a ser passada... Não considero algo errado alguém se preocupar com os temas relacionados anteriormente, entretanto deixar com que eles influenciem em sua vida e em seu relacionamento social, torna-se comum àqueles que não dão o devido valor a sua existência.
É interessante ver que muitos deixam de ter saúde para obter uma vida mais estável. Importam-se muito com o que os demais falarão, se irão gostar de suas casas, se irão se agradar de seus costumes, de seu carro, e nessa busca constante por uma vida ideal, sacrificam-se aos poucos e quando notam, anos e anos se passaram. Contudo nesse meio tempo pessoas também passaram em suas vidas, amores chegaram e partiram, filhos cresceram, pais se foram, e em muitas das vezes quando se aposentam saem falando orgulhosamente que cumpriram seu dever e que agora vão aproveitar a vida, serem felizes. Porque somente agora?
As pessoas nascem para serem felizes e muitas vezes não percebem. Na busca da felicidade por meio de uma fómula imposta, é normal passar por momentos felizes sem perceber que estes são a própria felicidade almejada.
É necessário não dar tanto valor a opinião alheia, pois a felicidade está no que sentimos e não no que as pessoas pensam a nosso respeito.